Em decisão histórica, missionários evangélicos são barrados da terra de indígenas isolados

Dois dos missionários que foram alvo da última decisão, durante uma expedição anterior.

Dois dos missionários que foram alvo da última decisão, durante uma expedição anterior.
© Facebook

Em uma decisão histórica, o juiz Fabiano Verli impede missionários evangélicos de fazer contato com povos indígenas isolados no Vale do Javari, lar da maior concentração de indígenas isolados do planeta.

A ação foi movida pela UNIVAJA, União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, para combater as tentativas dos missionários de alcançar comunidades isoladas.

Kenampa Marubo, líder da UNIVAJA, Vale do Javari.

Kenampa Marubo, líder da UNIVAJA, Vale do Javari.
© Silia Moan/UNIVAJA

A decisão do juiz nomeia vários missionários – Andrew Tonkin, Josiah McIntyre e Wilson de Benjamin – e a Missão Novas Tribos (Ethnos360), mas se estende a todos os missionários que estão tentando entrar na Terra Indígena do Vale do Javari.

O juiz destacou em sua decisão “a especial vulnerabilidade dos indígenas isolados.” E complementou dizendo que “contatá-los é um grande risco”.

Um casal Tsohom-dyapa e seu bebê recém contatados, Vale do Javari no Brasil, Amazonas. A foto foi tirada no hospital indígena onde estavam para tratamento médico.

Um casal Tsohom-dyapa e seu bebê recém contatados, Vale do Javari no Brasil, Amazonas. A foto foi tirada no hospital indígena onde estavam para tratamento médico.
© Fiona Watson/Survival

Ele autorizou o uso da força policial e militar para fazer cumprir a decisão e alertou que quem violar a ordem será multado em R$ 1.000 por dia.

Eliesio Marubo, o advogado indígena que atua na UNIVAJA, disse hoje à Survival: “A impressão que tenho, depois da concessão da liminar, é a melhor [decisão] possível! O mundo do Direito e das teorias jurídicas deve servir para aplicar a lei a todos. A UNIVAJA, como organização representativa dos povos indígenas do Vale do Javari, só está defendendo o direito das comunidades escolherem o que é melhor para si. Essa decisão é exclusivamente nossa, dos povos indígenas! Essa decisão põe discernimento forçado na cabeça do cristão que esqueceu da maior ordenança divina: amar e respeitar o próximo!”

A UNIVAJA disse em comunicado anterior à imprensa: “Caso chegue essa doença (covid-19) em nossas aldeias, o cenário pode ser o de genocídio. Apesar de todas essas possibilidades de um horizonte sombrio para os povos indígenas do Vale do Javari, o que temos visto, na prática, são tomadas de providências tímidas por parte da FUNAI, da SESAI e dos demais poderes públicos locais.”

A Missão Novas Tribos, uma das maiores organizações missionárias fundamentalistas do mundo, anunciou recentemente planos para entrar em contato com os povos indígenas do Vale do Javari e a compra de um helicóptero para adentrar o território.

A Survival International está liderando uma campanha internacional para impedir isso, e seus apoiadores estão bombardeando as páginas das redes sociais da organização pedindo que fiquem longe dos indígenas. A Survival também está fazendo campanha para pedir a exoneração do missionário evangélico, Ricardo Lopes Dias, recentemente nomeado chefe da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da FUNAI.

Os povos indígenas isolados são os povos mais vulneráveis do planeta. Populações inteiras foram exterminadas por doenças como gripe e sarampo às quais não possuem resistência. Por isso, qualquer tentativa de contato com esses povos durante a pandemia de coronavírus seria uma sentença de morte para muitos.

Tupá, uma mulher Matis, perto do rio Itui, no Vale do Javari. Os Matis foram devastados por doenças após o primeiro contato na década de 1970. Mais da metade dos Matis morreu no ano seguinte ao contato. Hoje sua população aumentou e são cerca de 500 indígenas, mas o governo brasileiro não está fazendo o suficiente para proteger sua saúde.

Tupá, uma mulher Matis, perto do rio Itui, no Vale do Javari. Os Matis foram devastados por doenças após o primeiro contato na década de 1970. Mais da metade dos Matis morreu no ano seguinte ao contato. Hoje sua população aumentou e são cerca de 500 indígenas, mas o governo brasileiro não está fazendo o suficiente para proteger sua saúde.
© Fiona Watson/Survival

O coronavírus já atinge comunidades indígenas na Amazônia. É provável que isso tenha consequências devastadoras para eles. Um garoto Yanomami de quinze anos morreu em decorrência do vírus, e há temores de que agora se espalhe por todo o território. A Terra Indígena Yanomami, que também abriga várias comunidades de indígenas isolados, sofre com a presença de milhares de garimpeiros ilegais. Os garimpeiros estão operando perigosamente perto de um grupo isolado, aumentando o risco de serem dizimados.

A diretora de pesquisa e campanhas da Survival, Fiona Watson, que conhece bem o Vale do Javari, disse hoje: “Esta é uma decisão muito importante, pois reconhece os enormes perigos e o ato criminoso de forçar o contato com indígenas isolados. É um grande golpe para os missionários evangélicos que pensam que estão acima da lei no Brasil de Bolsonaro. As autoridades brasileiras devem agir imediatamente para fazer cumprir a decisão, expulsando todos os missionários do Vale do Javari, e garantindo que eles não tentem retornar na surdina, como fizeram no passado.”