"Estuprada e espancada": organização vinculada ao Príncipe Harry está ligada a abusos de direitos humanos na África

28 janeiro 2024

Esta mulher Baka foi estuprada por um guarda florestal do African Parks. “O African Parks são pessoas muito ruins. Todo mundo que trabalha lá é muito ruim com a gente. Aquele homem foi cruel, ele foi desumano.” © Survival

Uma organização diretamente ligada ao príncipe Harry do Reino Unido tem financiado guardas florestais responsáveis por abusos de direitos humanos contra povos indígenas no Congo, de acordo com uma grande investigação publicada no jornal britânico Daily Mail neste domingo (28).

Os abusos ocorreram no Parque Nacional Odzala-Kokoua, localizado na República do Congo, que é administrado pela organização African Parks. O príncipe Harry é membro do Conselho de Diretores, cargo ao qual foi “elevado” em 2023, após ter sido presidente da organização por seis anos.

A investigação revelou provas de inúmeras atrocidades cometidas pela “milícia armada” do African Parks contra indígenas do povo Baka que vivem na região. Faz anos que a organização sabe desses abusos, e mesmo assim eles continuaram acontecendo.

Dois indígenas Baka de uma comunidade que foi expulsa de suas terras para dar lugar ao Parque Nacional Odzala-Kokoua. Muitas pessoas da aldeia foram espancadas e abusadas por guardas florestais. "Estamos com medo dos guardas nos verem na floresta e nos baterem.” © Survival

Um homem Baka disse ao Daily Mail: “O African Parks está nos matando lentamente. Estamos sofrendo tanto que poderíamos já estar mortos.”

Outro indígena disse: “O passado era muito melhor para nós - e o motivo disso é o African Parks”.

Outro homem Baka, Moyambi Fulbert, que foi citado no relatório, deixou esta mensagem para o príncipe Harry: “Eu diria a ele para parar de apoiar o African Parks. Ele é um homem poderoso. Ele come bem e vive bem – mas agora nós não temos nada e é tudo por causa do African Parks.”

Os Baka e outros caçadores-coletores que viveram e cuidaram das florestas no Congo desde tempos imemoriais viram muitas das suas terras serem roubadas e transformadas em Parques Nacionais e em outras “Áreas Protegidas”.

Eles foram expulsos de suas terras e, agora, vivem sem sua floresta, em condições precárias e dependentes de outros, ou até mesmo usados como “atrações turísticas”. 

Enquanto eles são proibidos de entrar na sua floresta ancestral, petroleiras, madeireiras, mineradoras e até praticantes de caça esportiva são considerados “parceiros” da conservação ambiental e podem continuar atuando na região.

A Diretora da Survival International, Caroline Pearce, disse hoje: “O African Parks, junto com outras grandes organizações de conservação ambiental como o WWF, tomam terras indígenas para transformá-las em parques ou reservas militarizadas - e depois seus guardas florestais atacam pessoas como os Baka por eles tentarem viver seu modo de vida tradicional. O príncipe Harry pode ajudar a impedir isso.”

“Estamos pedindo a ele que renuncie a seu cargo no Conselho de Diretores do African Parks. Ele precisa se afastar de uma organização que é cúmplice de despejos e abusos hediondos contra povos indígenas.”

“Os financiadores dessa organização devem retirar o seu dinheiro até que os Baka possam retornar ao parque e ter seus direitos à terra reconhecidos.”

“Os abusos que o Daily Mail descobriu estão sendo repetidos em várias partes da África e Ásia – este não é um caso isolado. Todo o modelo de conservação praticado por grandes organizações de conservação ambiental é construído sobre o roubo de terras indígenas e a expulsão de pessoas de suas terras - assim como ocorreu no período colonial. É hora de descolonizar a conservação ambiental.”

Pesquisadores de Survival que estiveram em Odzala-Kokoua estão disponíveis para entrevistas. Fotos e vídeos estão disponíveis aqui.

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