Destruição causada por garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Brasil, 2022.

Destruição causada por garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Brasil, 2022. © Bruno Kelly/HAY

Quatro indígenas Yanomami da Venezuela – três homens e uma mulher – foram mortos a sangue frio em março. O violento ataque aconteceu quando soldados venezuelanos abriram fogo contra um grupo de indígenas Yanomami durante uma discussão sobre acesso à internet. A tragédia ocorreu em Parima B, uma grande comunidade Yanomami onde há uma base militar.

Um menino Yanomami de 16 anos e o irmão de um dos mortos ficaram feridos e foram levados ao hospital da capital do estado, Puerto Ayacucho.

Os assassinatos ocorreram em um momento de crescente tensão no território. Apesar das repetidas demandas dos Yanomami na última década, as autoridades venezuelanas pouco fizeram, e pouco fazem, para impedir que milhares de garimpeiros ilegais invadam a terra indígena. Os militares, ao invés de proteger os Yanomami e seu território das invasões, são acusados de se beneficiarem com o comércio ilegal de ouro.

Uma catástrofe humanitária está avançando sob muitas comunidades: há relatos de garimpeiros obrigando mulheres Yanomami a se prostituírem e homens a trabalhar nos garimpos ilegais. Casos de malária são frequentes e, devido à crise política e econômica na Venezuela e à negligência do governo, as equipes de saúde são praticamente inexistentes no território.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos condenou o assassinato dos quatro indígenas Yanomami e pediu ao governo venezuelano que abra uma investigação independente sobre o caso e leve os culpados à justiça.

Protesto Yanomami e Ye'kwana em Boa Vista, Roraima. Eles estão apontando suas flechas para a estátua de um garimpeiro no centro da cidade.

Protesto Yanomami e Ye’kwana em Boa Vista, Roraima. Eles estão apontando suas flechas para a estátua de um garimpeiro no centro da cidade. © Mauricio Ye’kwana

A situação dos indígenas Yanomami no Brasil também é trágica e começa a lembrar uma zona de guerra. Neste mês, as organizações indígenas Hutukara e Wanasseduume, que representam os Yanomami e os Ye’kwana respectivamente, publicaram um chocante relatório. Intitulado “Yanomami sob ataque”, o documento relata casos de violência, abuso sexual e altos índices de malária e de envenenamento por mercúrio entre os Yanomami – tudo resultado da enorme invasão garimpeira no território.

Constatou-se que, entre 2016 e 2020, o garimpo ilegal de ouro cresceu 3.350% no território e agora afeta diretamente 273 comunidades Yanomami, totalizando 16.000 pessoas ou 56% da população total desta terra indígena. Em 2021, a atividade garimpeira aumentou 46% em comparação a 2020.

Destruição causada por garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Brasil, 2022.

Destruição causada por garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Brasil, 2022. © Bruno Kelly/HAY

A violência sexual contra as mulheres Yanomami também está aumentando já que garimpeiros oferecem drogas e álcool em troca de sexo. O relatório ainda cita vários casos de estupro contra mulheres e de assédio contra meninas Yanomami.

A qualidade da saúde dos Yanomami está despencando e o relatório afirma: “A extração ilegal de ouro causou uma explosão de casos de malária e outras doenças infectocontagiosas, com graves consequências para a saúde e a economia das famílias”.

O PCC já opera dentro da terra indígena e grupos de criminosos armados agem impunemente na região: muitas comunidades próximas às zonas de garimpo ilegal vivem em constante estado de sítio pois os invasores constantemente os intimidam e atiram contra eles. Em 2020, dois Yanomami foram mortos por garimpeiros e, em 2021, pelo menos dois Yanomami isolados foram supostamente assassinados por garimpeiros. Ainda em 2021, duas crianças Yanomami se afogaram quando foram sugadas por uma draga, maquinário utilizado para o garimpo de ouro.

Criança Yanomami, 2008. A saúde dos Yanomami está agora em risco, pois a malária e outras doenças estão se espalhando.

Criança Yanomami, 2008. A saúde dos Yanomami está agora em risco, pois a malária e outras doenças estão se espalhando. © Fiona Watson/Survival

Grande parte da invasão é fomentada pela retórica racista do presidente Jair Bolsonaro e pelas tentativas de subverter a Constituição e legalizar todas as formas de garimpo em territórios indígenas. O alto preço do ouro e os poderosos interesses econômicos e políticos na região agravam o problema. No entanto, apesar da campanha do presidente e de seus aliados para a aprovação, o projeto de lei que visa permitir a mineração em territórios indígenas está atualmente suspenso no Congresso.

Um líder Yanomami de Palimiu, comunidade que sofreu diversos ataques violentos, disse: “Vocês não indígenas, vocês que vivem em terras distantes, vejam que nós Yanomami estamos mesmo sofrendo! Queremos que os líderes do mundo todo olhem para nós! Nós estamos sofrendo junto com a floresta! Agora a floresta morreu. Acabaram com todas as árvores que comíamos os frutos! Derrubaram todas as grandes árvores! E quem fez isso? Foram os garimpeiros que acabaram com elas! A nossa terra está completamente morta! Da mesma forma como a floresta está devastada, nós também estamos! Por que estamos estragados? Fomos arrasados pelo garimpo! Queremos abrir seus olhos. Eles acabaram com todos nós!”.

A Survival se manifestou junto às autoridades venezuelanas pelo assassinato dos quatro Yanomami; pediu que os militares sejam julgados e condenados pelos assassinatos; e recentemente protestou em frente a embaixada brasileira com outras ONGs contra o garimpo ilegal, extração de madeira e grilagem de terras indígenas.