A indústria da conservação ambiental tem um lado enraizado no racismo e no colonialismo que destrói a natureza e pessoas.

A indústria da conservação ambiental tem um lado enraizado no racismo e no colonialismo que destrói a natureza e pessoas.
© Survival

O 1° grande Congresso Internacional alternativo para descolonizar a conservação ambiental, “Nossa Terra, Nossa Natureza”, ocorrerá em 2 de setembro de 2021, imediatamente antes do Congresso Mundial de Conservação da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Ambos os eventos serão sediados em Marselha, na França.

Neste evento, palestrantes e representantes indígenas de cerca de 18 países compartilharão evidências e experiências em primeira mão de atrocidades da conservação ambiental e do roubo de terras, e apresentarão um modelo de conservação ambiental alternativo.

O congresso “Nossa Terra, Nossa Natureza” apoiado pelas organizações Minority Rights Group, Rainforest Foundation do Reino Unido, e Survival International, entre outras, destacará a oposição global às tentativas de governos, indústrias e grandes ONGs de conservação ambiental de transformar 30% do planeta em “áreas protegidas”. Também desafiará a ideia das “Soluções Baseadas na Natureza (NBS)” que colocam um valor monetário na natureza e oferecem uma falsa solução para o combate às mudanças climáticas.

O projeto de líderes mundiais e organizações de conservação ambiental de transformar 30% do planeta em “áreas protegidas” poderá representar o maior roubo de terras da história. Trezentas milhões de pessoas, muitas delas indígenas, podem ter suas terras e meios de subsistência roubados. Isso já está acontecendo com povos indígenas na África e na Ásia. A população local é expulsa com o uso da força, pela coerção ou suborno. Em muitos casos, eles são espancados, torturados e abusados por guardas florestais quando tentam caçar para alimentar suas famílias ou acessar suas terras ancestrais.

Povos indígenas estão sendo despejados ilegalmente de suas terras ancestrais em nome da “conservação ambiental”: essas famílias Khadia foram expulsas da Reserva Similipal de Tigres e forçadas a viver por meses sob lonas de plástico.

Povos indígenas estão sendo despejados ilegalmente de suas terras ancestrais em nome da “conservação ambiental”: essas famílias Khadia foram expulsas da Reserva Similipal de Tigres e forçadas a viver por meses sob lonas de plástico.
© Survival International

Caroline Pearce, Diretora Executiva da Survival International, disse hoje: “As narrativas das Soluções Baseadas na Natureza e do projeto dos 30% são uma grande mentira. As “áreas protegidas” não oferecem uma solução para a crise climática, perda de biodiversidade ou pandemias e já destruíram os meios de subsistência sustentáveis, as terras e as vidas de milhões de pessoas. O projeto dos 30% provavelmente prejudicará centenas de milhões de pessoas mais, incluindo povos indígenas cujas vozes estão sendo silenciadas na indústria de conservação ambiental.”

O congresso “Nossa Terra, Nossa Natureza” dará uma plataforma (pessoalmente ou online) para líderes locais, ativistas indígenas, acadêmicos e cientistas de todos os continentes. Ele desafiará o Congresso Mundial de Conservação a abandonar o projeto dos 30% e as Soluções Baseadas na Natureza em favor de abordagens que coloquem as pessoas e a justiça social no centro da preservação ambiental.

O evento será transmitido para o mundo todo e será inaugurado por Fiore Longo, coordenadora da campanha pela descolonização da conservação ambiental da Survival. Ela disse hoje: “Os melhores guardiões da natureza são os povos indígenas, cujos territórios contêm agora cerca de 80% da biodiversidade mundial. Mas eles estão sendo expulsos dessas terras por uma indústria da conservação ambiental que está cada vez mais militarizada, e que se associa a interesses corporativos que estão saqueando o planeta em busca do lucro. O projeto dos 30% representa o maior roubo de terras da história, é fundamentalmente colonial e racista e deve ser interrompido.”

NOTAS:
- “Nossa Terra, Nossa Natureza” ocorrerá nos dias 2 e 3 de setembro de 2021 em Marselha, na França. A participação virtual também é possível. Acesse esse link para se registrar;

- O evento será transmitido em três idiomas: inglês, espanhol e francês.

- O congresso será seguido por uma coletiva de imprensa em 3 de setembro de 2021, 10h00-11h00 (horário da França). Você pode se inscrever para a coletiva de imprensa aqui.

Alguns dos palestrantes confirmados são:

Mordecai Ogada, ambientalista e autor do livro “The Big Conservation Lie” (A Grande Mentira da Conservação), que irá explicar a armadilha por trás das chamadas “unidades de conservação comunitárias”, Quênia;

Pranab Doley e Birendra Mahato, ativistas indígenas do Parque Nacional Kaziranga na Índia e do Parque Nacional Chitwan no Nepal, que exporão as atrocidades por trás da conservação ambiental em suas terras;

John Vidal, ex-editor de meio ambiente do jornal britânico The Guardian, Reino Unido;

• Lottie Cunningham Wren, advogada e ativista indígena dos direitos humanos e vencedora do prêmio Right Livelihood (o “Nobel Alternativo”) de 2020, Nicarágua;

Victoria Tauli Corpuz, da organização indígena Tebtebba e ex-Relatora Especial da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, Filipinas;

Blaise Mudodosi Muhigwa, advogado e jurista ambiental, Congo;

Dina Gilio-Whitaker, Professora do programa de Estudos sobre Indígenas Americanos da Universidade Estadual San Marcos da Califórnia e educadora independente em política ambiental de indígenas americanos, Estados Unidos;

Archana Soreng, do Grupo de Aconselhamento Juvenil do Secretário-Geral da ONU sobre Mudanças Climáticas, Índia.