“O que os brancos fazem com todo esse ouro? Por acaso eles o comem?”

Davi Kopenawa Yanomami é um xamã e líder do povo Yanomami

Davi Kopenawa Yanomami é um xamã e líder do povo Yanomami

© Pablo Levinas/Survival

Davi Kopenawa Yanomami é um xamã e líder do povo Yanomami, conhecido como “O Dalai Lama da floresta”. Ele defende seu povo e sua terra com determinação, lutando contra a destruição da Amazônia. Por esse importante trabalho, ele, juntamente com a organização Yanomami Hutukara, recebeu o Prêmio Right Livelihood 2019, conhecido como “Prêmio Nobel Alternativo”.

Abaixo está um trecho de seu livro, A Queda do Céu, no qual Davi explica que os Yanomami têm uma visão muito diferente em relação aos bens materiais, que ele chama de “mercadoria”.

Os Yanomami acham que é ganancioso e mesquinho acumular muitas coisas: se você tem algo que alguém mais precisa, por que não compartilhar?

“Sejam brancos ou Yanomami, não gostamos de avarentos!…Só penso nas mercadorias para distribuí-las. Se tivesse um montão delas, como os brancos têm, iria dá-las a todos os que me pedissem, dizendo: ‘São suas! Peguem e alegrem-se! É para distribuí-las à larga que fabrico tantas!’.

Mas os brancos são gente diferente de nós…eles têm muitas e muitas máquinas e fábricas. mas nem isso é o bastante para eles. Seu pensamento está concentrado em seus objetos o tempo todo. Não param de fabricar e sempre querem coisas novas.

Temo que sua excitação pela mercadoria não tenha fim e eles acabem enredados nela até o caos. Já começaram há tempos a matar uns aos outros por dinheiro, em suas cidades, e a brigar por minérios ou petróleo que arrancam do chão.

Também não parecem preocupados por nos matar a todos com as fumaças de epidemia que saem de tudo isso. Não pensam que assim estão estragando a terra e o céu e que nunca vão poder recriar outros.

Suas cidades estão cheias de casas em que um sem-número de mercadorias fica amontoado, mas seus grandes homens nunca as dão a ninguém. Se fossem mesmo sábios, deveriam pensar que seria bom distribuir tudo aquilo antes de começar a fabricar um monte de outras coisas, não é? Mas nunca é assim!

Ao contrário, os brancos costumam empilhar seus bens de modo mesquinho e guardá-los trancados…Vivem com medo de serem roubados…Devem pensar, com satisfação: ‘Só eu possuo todas essas coisas! Sou inteligente! Sou um homem importante, sou rico!’.

Acontece a mesma coisa com seus alimentos, que sempre empilham em suas casas. Quando pedimos, nunca os dão sem antes nos fazer trabalhar para eles. Nós não somos gente que recusa comida a visitantes! Quando nossas roças estão cheias de mandioca e de bananas, moqueamos bastante caça e convidamos os moradores das casas vizinhas para saciar sua fome numa festa reahu.

A comida dos brancos não tem valor tão grande quanto eles pretendem! Como a nossa, ela desaparece assim que é engolida e acaba virando fezes! Suas mercadorias também não são tão preciosas quanto eles dizem. É só o pavor que eles têm de sentir falta delas que os faz aumentar seu valor.

…Nós habitantes da floresta, só gostamos de lembrar dos homens generosos. Por isso temos poucos bens e estamos satisfeitos assim. Não queremos possuir grandes quantidades de mercadoria. Isso confundiria nossa mente. Ficaríamos como os brancos. Estaríamos sempre preocupados: ‘_Awei! _Quero ter aquele objeto! E também quero aquele outro, e o outro, e mais aquele!’. Não acabaria nunca!

Então, a nós basta o pouco que temos. Não queremos arrancar os minérios da terra, nem que suas fumaças de epidemia acabem caindo sobre nós! Queremos que a floresta continue silenciosa e que o céu continue claro, para podermos avistar as estrelas quando a noite cai.

Os brancos já têm material suficiente para fabricar suas mercadorias e máquinas; terra para plantar sua comida; tecidos para se cobrir; carros e aviões para se deslocar. Apesar disso, agora cobiçam o metal de nossa floresta, para fabricar ainda mais coisas, e o sopro maléfico de suas fábricas está se espalhando por toda parte…talvez sua escuridão desça sobre nossas casas e, então, os filhos de nossos filhos não verão mais o sol.”

Este texto é uma seleção de trechos do livro A Queda do Céu .