Davi Kopenawa, porta-voz yanomami e xamã, tem falado contra o novo livro de Chagnon “Noble Savages”.

Davi Kopenawa, porta-voz yanomami e xamã, tem falado contra o novo livro de Chagnon “Noble Savages”.
© Fiona Watson/Survival

O novo livro do controvertido antropólogo Americano Napoleon Chagnon tem desencadeado uma onda de protestos entre especialistas e índios Yanomami:

- Marshall Sahlins, ‘um dos antropólogos mais respeitado da atualidade’, se retirou da Acadêmia Nacional de Ciências dos Estados Unidos em protesto a eleição de Chagnon para a Acadêmia. Sahlins escreveu anteriormente uma crítica devastadora a respeito do trabalho de Chagnon no Washington Post.

- Davi Kopenawa, um porta-voz dos Yanomami no Brasil e Presidente da Hutukara Associação Yanomami, falou sobre o trabalho de Chagnon ‘(Chagnon) disse de nós: ‘Os Yanomami são selvagens’! Ele ensina coisas mentirosas para os jovens [estudantes], transmite informações falsas: ‘Olhem! Os Yanomami são assim! Os Yanomami ficam se matando entre eles, em razão das mulheres’. Ele continua dizendo isso, mas: como eles fazem? Seus líderes, o chefão, o chefe, o governo Americano. O que é que ele fez? Acho que foi… talvez …. faz quatro anos, uma guerra grande travaram, mataram milhares de crianças, mataram milhares de moças, os rapazes, os homens grandes, mataram quase tudo, assim é que eles fizeram! Esse é que é homem feroz, esse é que é homem feroz de verdade, jogaram bomba, metralharam bastante e acabaram com a terra… Nós não fazemos isso’.

- Um grande grupo de antropólogos que vem trabalhando com os Yanomami durante muitos anos emitiu uma declaração refutando a avaliação de Chagnon dos Yanomami como sendo um povo ‘feroz’ e ‘violento’. Eles descrevem os Yanomami como sendo um povo ‘geralmente pacífico’.

- O diretor da Survival Stephen Corry disse, ‘O trabalho de Chagnon é frequentemente usado por escritores, como Jared Diamond e Steven Pinker, os quais querem retratar os povos indígenas como sendo ‘selvagens brutais’ – muito mais violentos do que ‘nós’. Mas nenhum deles reconhece que as conclusões centrais de Chagnon sobre ‘violência’ entre os Yanomami têm sido desacreditadas’.

A autobiografia de Napoleon Chagnon “Noble Savages: My Life Among Two Dangerous Tribes – the Yanomamö and the Anthopologists”, (Nobres selvagens: Minha Vida entre Duas Tribos Perigosas – os Yanomamö e os Antropólogos) acaba de ser publicada. Seu livro de 1968, ‘Yanomamö: The Fierce People’ (Yanomamö: O Povo Feroz), retratava os Yanomami como ‘manhosos, agressivos e intimidadores’, e afirmava que eles ‘vivem em um estado de guerra crônica’. Este livro ainda continua sendo um trabalho de referência nos cursos de graduação em antropologia nos Estados Unidos.

Os Yanomami vivem na fronteira do Brasil com a Venezuela e são o maior grupo indígena relativamente isolado da América do Sul. O seu território é protegido por lei, mas garimpeiros e fazendeiros continuam invadindo suas terras, destruindo sua floresta e espalhando doenças que na década de 80 matou um em cada cinco Yanomami.

A descrição de Chagnon de que os Yanomami são ‘manhosos, agressivos e intimidadores’ e que eles ‘vivem em um estado de guerra crônica’ tem sido amplamente desacreditada.

A descrição de Chagnon de que os Yanomami são ‘manhosos, agressivos e intimidadores’ e que eles ‘vivem em um estado de guerra crônica’ tem sido amplamente desacreditada.

© Fiona Watson/Survival

O trabalho de Chagnon teve consequências de longo alcance sobre os direitos dos Yanomami. No final dos anos de 1970, a ditadura militar no Brasil, que se recusava a demarcar a terra Yanomami, foi claramente influenciada pela caracterização dos Yanomami como sendo hostis entre eles, e nos anos de 1990, o governo do Reino Unido recusou o financiamento para um projeto de educação com os Yanomami, dizendo que qualquer projeto com este povo deveria trabalhar para ‘reduzir a violência’.

Mais recentemente, o trabalho de Chagnon foi citado no controvertido livro de Jared Diamond “The World Until Yesterday”, no qual ele afirma que a maioria dos povos tribais, incluindo os Yanomami, estão ‘presos em ciclos de violência e guerra’ e apela para a imposição do controle do Estado para trazer-lhes a paz.

O diretor da Survival International, Stephen Corry, disse hoje, ’A maior tragédia da história é que os Yanomami reais ficaram amplamente de fora do debate, uma vez que os meios de comunicação optaram por se concentrar apenas nos detalhes picantes do debate que se travava entre antropólogos ou nas caracterizações disputadas de Chagnon. Na verdade, ‘Yanomami: The Fierce People’ teve repercussões desastrosas tanto para os Yanomami quanto para os povos indígenas em geral. Não há dúvida de que este livro foi usado contra eles e trouxe de volta o mito do ’Selvagem Brutal’ do século XIX para a opinião geral."

Nota aos editores:
As declarações completas e informações adicionais sobre a controvérsia podem ser encontradas aqui?