Índios Guarani são forçados a atravessar o rio de forma perigosa usando uma corda fina para conseguir alimentos

Índios Guarani são forçados a atravessar o rio de forma perigosa usando uma corda fina para conseguir alimentos
© MPF/Survival

Atualização
31 de outubro de 2012

Um juiz decidiu que os Guarani podem permanecer neste pequeno pedaço da sua terra ancestral até que a demarcação esteja completa e os índios possam reocupar o resto do seu território.


Um grupo de índios brasileiros que já passaram por violência e morte para retornar à sua terra fez um apelo dramático ao governo após serem informados de que serão expulsos mais uma vez.

Os 170 índios, membros da tribo Guarani, que é composta por 46.000 indígenas no Brasil, têm sofrido diversos ataques brutais desde que retornaram a uma pequena parte de sua terra ancestral. O território indígena, conhecido como Pyelito Kuê/ M’barakai, é agora ocupado por uma fazenda. Os índios são cercados por pistoleiros contratados pelos fazendeiros, com pouco acesso a comida ou tratamento de saúde.

No mês passado um juiz decidiu pelo despejo. Os indígenas declararam em uma carta: ’Esta decisão é parte da ação de extermínio histórico dos povos indígenas do Brasil. Já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo… vamos morrer todos em pouco tempo.

’Nós já vamos e queremos ser morto e enterrado junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje. Por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. 

‘Decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem morto.’

Quatro índios Guarani da comunidade já morreram desde a reocupação: dois se suicidaram e outros dois morreram após ataques de pistoleiros.

Restos de um barraco Guarani, que foi queimado durante um violento despejo.

Restos de um barraco Guarani, que foi queimado durante um violento despejo.

© MPF/Survival

A FUNAI, responsável por mapear e demarcar a terra Guarani, afirma que está trabalhando para reverter a ordem de despejo.

O grande atraso neste programa de demarcação significa que milhares de Guarani estão morando em reservas superlotadas ou em acampamentos à beira de estradas, com pouco acesso a alimentos, água potável e tratamento de saúde. Eles sofrem uma das mais altas taxas de suicídio no mundo: dados recentes do governo mostram a média de um suicídio cometido por um Guarani toda semana nos últimos dez anos.

O antropólogo Guarani Tonico Benites afirmou: ‘O suicídio indígena ocorreu e aumentou em decorrência da demora de identificação e demarcação do território antigo’.

A Survival apela ao governo que seja permitido aos Guarani permanecer em sua terra, e que todos os territórios Guarani sejam demarcados urgentemente, antes que mais vidas sejam perdidas.

O diretor da Survival International, Stephen Corry disse hoje: ‘A extinção dos povos indígenas do Brasil é uma mancha na história do país, e é uma vergonha que as mesmas crueldades e os mesmos abusos do período colonial sejam endossados pelo sistema judiciário brasileiro nos dias de hoje. O comovente apelo dos Guarani de Pyelito não poderia ser mais claro: a vida deles sem a sua terra é tão cheia de tristeza e sofrimento que não vale a pena ser vivida. O Brasil deve agir antes que mais um de seus povos seja destruído.’