Leia Aquino falando com a Survival alguns anos antes de sua morte em 2016

Leia Aquino falando com a Survival alguns anos antes de sua morte em 2016

© Survival

É com pesar que a Survival anuncia a repentina morte de Léia Aquino, ativista, porta-voz e professora Guarani Kaiowá. Ela morreu, no hospital, vítima de um AVC em 3 de junho.

Determinada e atenciosa, Léia estava à frente da luta dos Guarani Kaiowá por direitos territoriais e testemunhou alguns dos confrontos mais violentos entre sua comunidade e os fazendeiros que ocupam sua terra, conhecida como Ñanderu Marangatu, onde diversos líderes Guarani foram mortos por fazendeiros.

Assista: Léia falando sobre os pistoleiros que constantemente ameaçam os Guarani.

Apesar de Ñanderu Marangatu ter sido formalmente reconhecido como território Guarani em 2005, fazendeiros continuam ocupando a maior parte da terra. Os Guarani só podem viver em uma fração do que é seu por direito.

Antes das reocupações, os Guarani estavam vivendo em uma pequena porção de terra, onde a desnutrição era frequente entre as crianças mais novas.

Os Guarani da comunidade de Léia se unem em um ritual de protestos em sua terra ancestral.

Os Guarani da comunidade de Léia se unem em um ritual de protestos em sua terra ancestral.

© Egon Dionisio Heck/Survival

A Survival convidou Léia e outro líder Guarani, Marcos Veron, à Europa em 2000 para o lançamento do livro Deserdados. sobre os indígenas do Brasil.

Durante sua viagem, Léia comoveu diversos públicos, incluindo crianças, quando falando em uma escola sobre a situação desesperadora dos Guarani: “Quando eu penso no meu povo, eu penso em liberdade, porque estamos presos. Nós não somos livres, e isso é porque não temos terra.

“Quando temos terra, temos liberdade, e mais do que isso, temos felicidade. Olhando nos rostos das pessoas, só se vê tristeza e preocupação, porque eles não têm o que precisam para viver. Queremos plantar, mas não temos terra para plantar, mas essa terra é nossa, pertence a nós.”

Da mesma forma, ela se emocionou com o interesse dos jovens e disse a um grupo de crianças italianas: “Essas coisas que passam que realmente – é uma situação muito difícil e não tem como relatar tudo nosso e sabemos que vocês nos amam e gostam de ouvir a nossa situação – se interessam por tudo pelo que agente passa – para mim foi uma surpresa quando ela me disse que tinha escola mudando a vida dos índios Kaiowá e Guarani.”

Léia também era uma professora muito respeitada de crianças Guarani de Ñanderu Marangatu. Ela dava grande importância ao ensino da língua Guarani a fim de encorajar os Guarani mais jovens a se orgulharem da cultura de seu povo.

A pequena escola foi fechada pelas autoridades em 1999, em retaliação à participação de Léia em protestos pacíficos para os direitos territoriais. No entanto, ela pressionou, com sucesso, para sua reabertura e a escola subsequentemente cresceu em tamanho.

Léia foi enterrada em uma das áreas de Ñanderu Marangatu que os Guarani reocuparam no ano passado. Ela deixa seu marido – um agente de saúde comunitária – e três crianças. Muitos sentirão saudades de Léia, mas seu legado viverá.