Nesta cena de 'A tribo antiga da Amazônia', Paul Raffaele diz que uma garota Suruwaha se recusou a apertar a sua mão porque queria mata-lo. Na verdade, ele estava usando uma quantidade tão grande de protetor solar que a Suruwaha pensou que ele tinha uma doença de pele.

Nesta cena de ‘A tribo antiga da Amazônia’, Paul Raffaele diz que uma garota Suruwaha se recusou a apertar a sua mão porque queria mata-lo. Na verdade, ele estava usando uma quantidade tão grande de protetor solar que a Suruwaha pensou que ele tinha uma doença de pele.
© Channel 7

Um canal de TV australiano perdeu um recurso judicial sobre um programa rotulado “Show de Horrores” por conta de sua descrição racista e enganosa de índios amazônicos como assassinos de crianças.

O Tribunal Federal da Austrália rejeitou o recurso do Canal 7 contra a decisão de que o programa ‘A tribo antiga da Amazônia’, apresentado pelos “aventureiros” australianos Paul Raffaele e Tim Noonan, era racista. Este é o segundo recurso que o Canal 7 perdeu.

Survival International, o movimento global pelos direitos dos povos indígenas, levou a denúncia para o órgão australiano de regulação da mídia, ACMA, em 2011.

A decisão assinala uma importante vitória para os índios Suruwaha do Brasil, que haviam condenado a representação enganosa de seu povo feita pelo show como assassinos de crianças inocentes. Duas audiências separadas agora consideraram que essa representação foi gravemente incorreta.

A reportagem retratou os Suruwaha como assassinos de crianças e os 'piores violadores de direitos humanos do mundo'.

A reportagem retratou os Suruwaha como assassinos de crianças e os ‘piores violadores de direitos humanos do mundo’.
© Adriana Azevedo/Survival

Um homem Suruwaha declarou à Survival depois que o show foi transmitido em 2011: “Eles mentiram sobre nós… Eles falaram, ‘Os Suruwaha são assassinos de crianças’. Atualmente os Suruwaha não matam crianças.”

O show angariou fundos publicamente para uma organização missionária evangélica que está pressionando por um projeto de lei no Congresso brasileiro que poderia permitir a remoção de crianças indígenas – fazendo eco ao escândalo australiano da Geração Roubada. O projeto destaca índios brasileiros e perpetua o mito de que povos indígenas são mais violentos do que outras sociedades.

O show do Canal 7 não é um caso isolado. Uma reportagem recente da TV Globo afirmou falsamente que 13 tribos no Brasil praticam infanticídio, embora de fato a prática seja extremamente rara e esteja desaparecendo. Infelizmente, essas representações enganosas dos povos indígenas continuam a ter um profundo impacto na forma como eles são tratados pelos que estão no poder.

O Diretor da Survival, Stephen Corry, disse hoje: “Um dos tribunais de mais alta instância da Austrália acabou de confirmar o que Survival e os Suruwaha já sabiam desde o início – que a representação dos Suruwaha como matadores de crianças feita pelo Canal 7 foi racista e falsa. Lamentavelmente, o infanticídio acontece em todas as sociedades. Deveria ser condenado em toda parte, mas o grupo de pressão evangélico do Brasil decidiu evidentemente destacar os índios como responsáveis, para promover a ideia de que eles são atrasados e necessitam de intervenção externa”.

Notas aos editores:

- Formas de infanticídio podem ser encontradas em todas as sociedades, incluindo as industriais. A prática é rara e está desaparecendo entre os índios amazônicos. Survival se opõe a práticas não consensuais, mesmo que ‘tradicionais’, responsáveis por ferir ou matar pessoas. Isso inclui o infanticídio.

- Baixe um documento sobre o que especialistas e indígenas dizem a respeito das alegações de infanticídio feitas pela organização missionária fundamentalista JOCUM.

- Survival escreveu umas orientações éticas para ajudar cineastas a trabalharem responsavelmente com povos indígenas.